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“RÚSSIA, UCRÂNIA, GUERRA… E O QUE O ORIENTE MÉDIO TEM A VER COM ISSO?”

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Por Samuel Davis

O conflito Rússia-Ucrânia acendeu uma série de reflexões e incitou um tanto maior ainda de análises, resenhas e críticas em torno de possibilidades de futuro para ambos os países, mas principalmente para o globo, no que concerne a temas como economia, sociedade, influência, peso militar, credibilidade política etc.. Algumas regiões serão especialmente impactadas pelo conflito de forma objetiva e rápida, enquanto que outras terão consequências em forma de reflexo, mais lentas e dependentes de outras variáveis. Entretanto, é certo que o mundo todo deve sentir, em maior ou menor intensidade, os impactos deste conflito, que envolve uma das maiores potências mundiais de forma direta e todas as outras de forma indireta.

O Oriente Médio não foge a regra e, dada sua colocação no cenário internacional contemporâneo, deve ser parte recorrente no eixo especulativo em torno do conflito. Desde os tempos da Guerra Fria, a região compreendida pelo Oriente Médio expandido, que abrange desde o Cáucaso e o Levante, até a Península Arábica e o Egito, é lida enquanto um ponto geopoliticamente estratégico e tem sido alvo periódico de manobras políticas tanto do ocidente quanto do oriente, apesar de manter relações históricas mais estreitas com este último. Desta forma, este artigo busca fazer uma reflexão prototípica acerca das formas que o conflito pode incidir no Oriente Médio em variados aspectos.

Perpassando primeiramente pela esfera econômica, os efeitos são imediatos. Apesar do alto grau de intercâmbio econômico interno entre as nações que compõe o Médio Oriente, este ainda é parte integrante do sistema econômico global e detêm determinado grau de interdependência. Sendo assim, a instabilidade que atingiu a bolsa no primeiro dia de conflito provocou alertas nos principais especuladores das nações da região. Ao mesmo tempo que os investimentos podem ter altas surpreendentes em relação a Commodities, que são base econômica da região, como o Petróleo, a inflação também tende a subir, tendo em consideração que a Rússia é uma importante parceira econômica da região e com os embargos e sanções alguns mercados podem ficar vagos. 

Existem mercados consumidores alternativos, mas algumas variáveis políticas têm que ser avaliadas, tendo em consideração que algumas economias da região são bastante dependentes das regências de Organizações Regionais, como a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e potências orientais, como a Rússia e a China. A evolução do comportamento econômico local vai depender da duração do conflito, sendo o mais provável, no caso de um conflito curto, uma movimentação ágil dos mercados produtores para adaptar a oferta à demanda, o que deve elevar os índices de inflação e provocar a alta nos preços das commodities que detêm o maior fluxo de produção, como grãos e óleos brutos.

No entanto, saindo do aspecto econômico, as maiores consequências não devem vir de forma objetiva e nem sequer devem ser percebidas a curto prazo. São de ordem política e estrutural internacional, sendo que a depender dos resultados do conflito, um novo período deve ser iniciado na arena internacional.

A Rússia feriu gravemente os princípios da Carta das Nações Unidas. Se a comunidade internacional opositora, aqui representada pelo ocidente clássico – Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha etc.- conseguir responder de forma efetiva, articulada e ágil, punindo a República Federativa da Rússia por suas violações, bem como conseguir manter a integridade territorial ucraniana, a configuração do cenário internacional não deve sofrer grandes mudanças.

No entanto, se o ocidente não conseguir defender a soberania ucraniana nem neutralizar a Rússia de alguma forma, o que parece mais realista no momento, a decadência da hegemonia americana deve ficar mais evidente, acompanhada de um desgaste recorde da OTAN e de auspícios de uma era genuinamente pós-ocidental. Nesta conjuntura, os mecanismos formais de regência da comunidade internacional devem perder credibilidade, esta deve acelerar um processo de reorganização e adaptação – que já existe, diga-se de passagem – e o Oriente Médio deve ser atingido de algumas formas.

Nesta realidade, que é a esperada, a região do Médio Oriente tem alguns álibis, como sua proximidade política com a Rússia e com a China, ao passo que também tem existido esforços mais incisivos nos últimos tempos para uma maior integração regional. Contudo, algumas questões devem emergir de forma mais complexa, como por exemplo as dinâmicas de delimitação territorial que são um problema na região há muito tempo. 

Com a perda de credibilidade dos organismos e resoluções internacionais, as negociações que costumam se guiar por estes princípios tendem a se tornar muito mais voláteis e imprevisíveis. Além disso, devem contar muito menos com a agenda de interferências ocidental – um tema com muitas nuances que deixo para recortar em uma outra oportunidade. 

Os próprios protagonistas do bloco ocidental de países devem entender definitivamente o Oriente Médio enquanto um ponto estratégico oriental e promover um afastamento político mais seguro do que aquele que vem sendo lentamente aplicado nos últimos anos.

Em conclusão, na possibilidade de uma resolução muito assimétrica do conflito Rússia-Ucrânia favorável para a primeira parte, o Oriente Médio deve ser alocado em um espaço geopolítico – já estipulado pelos analistas há alguns anos – que vai impor novos e mais complexos desafios em relação, especialmente, a temas como território, soberania, interferência internacional e polarização. 


São Paulo – SP