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“Em vez de drones e mísseis, quero receber o povo do Irã em um voo direto de Teerã – Tel-Aviv” – Entrevista com Prof.º Meir Javendafar

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Meir Javedanfar, Ph.D em estudos do Oriente Médio pela Haifa University, palestrante, autor e comentarista iraniano-israelense. Ele leciona Política Iraniana na Reichman University em Israel desde 2012. Coautor da biografia de Ahmadinejad, “The Nuclear Sphinx of Tehran: Mahmoud Ahmadinejad and the State of Iran”, que foi publicada em quatro idiomas. Javedanfar tem muitos artigos publicados sobre o Irã e assuntos relacionados em  publicações como Foreign Affairs, Al-Monitor, The Diplomat, The Guardian, entre outras. Ele já foi palestrante convidado em mais de 20 universidades. Sua tese de doutorado tratou da tomada de decisões de segurança de Mohammad Reza Shah em relação às ameaças representadas pelo Iraque e pela União Soviética.

A entrevista, em português, foi conduzida pelo Augusto Lerner, Analista Institucional, e Isabela Buium, Analista de Dados da StandWithUs Brasil.

 


Conte-nos um pouco sobre sua trajetória professor, onde o senhor nasceu e como foi parar em Israel para estudar a política de seu país natal.

Javendafar: Eu sou judeu iraniano e nasci em 1973, em Teerã (Capital do Irã). A minha família é de Isfahan, que fica no centro do país, e saímos do Irã em 1987, 08 anos depois da saída forçada dos judeus. Morando na na Inglaterra, onde vivemos por 04 anos. Posteriormente, meus pais pediram Aliá (imigração de retorno) para Israel. Fiquei na Inglaterra até 2004, e depois também fiz a Aliá para chegar em Israel. Eu sou filho da Guerra da Revolução no Irã (1979), porque quando ela ocorreu, eu tinha de 06 a 07 anos de idade, e depois houve a guerra entre Irã e Iraque (1980 – 1988). E, na casa de meu pai, tinha um rádio transistor, e eu fui desenvolvendo esse interesse pela política, porque eu era apenas um menino de 07 ano e vi uma Revolução, que mudou a história do Irã e os eventos em decorrência dela levaram a mim e à minha família a fugir após 08 anos.

Então, a política estava em todo o lugar, e ela existe em todo o lugar. E para mim é muito importante apresentar Israel ao Brasil, assim como falar do Irã em Israel.

Como você descreveria a dinâmica social, cultural e política no Irã antes da Revolução Islâmica de 1979, e como essas características influenciaram a vida cotidiana das pessoas?

Javendafar: O povo iraniano fez a Revolução com a esperança de melhorar a sua vida, ninguém faz uma revolução para piorar, e as pessoas tinham diferentes razões. A vontade de democracia e a população poder participar da democracia. E tínhamos a impressão que pela proximidade do Xá Iraniano, Mohammad Reza Pahlavi, com os Estados Unidos, o Xá era como um fantoche dos americanos e o povo iraniano tem muito orgulho da sua história, que tem mais de 3 mil anos. E na política, a percepção é mais importante do que a verdade.

E percebemos que o Xá parecia um fantoche dos EUA, e que ele não era verdadeiro com a própria população. Enquanto o povo do Irã queria o desenvolvimento tecnológico e científico, assim como o Japão fez. Mas só percebemos que não alcançaríamos esse desenvolvimento depois de dois anos da Revolução; percebemos que não teríamos um país democrático.

E o sonho iraniano era viver em um país independente, e de não mais ser um fantoche. Então, o Irã cortou relações com os Estados Unidos e o Ocidente, e se aproximou da União Soviética. E como foram feitas ameaças regionais e houve um discurso de isolamento do Irã regional e internacionalmente, consequentemente houve apoio massivo à Revolução.

E também houve o ataque de Saddam Hussein ao Irã. E como existia um grande desejo nacional de lutar pelos valores revolucionários, assim como a influência ideológica da religião, o povo lutou unido pela sua pátria, e depois dessa guerra tínhamos muita esperança de cooperação entre o Irã e o Ocidente, principalmente para reconstruir o país, pois depois de 08 anos de conflito, as cidades e a economia estavam destruídas pela guerra.

Porém, a realidade pós-revolução foi de continuidade do que estava sendo anteriormente, e o fundamentalismo se aprofundou. Por isso, eu compreendo que Ruhollah Khomeini foi como Lênin, porque havia muita legitimidade, havia a força da revolução e ele se mostrava como uma potência pragmática.

Já Ali Khamenei, eu o vejo como Stalin, porque quando Khamenei e Stalin viraram líderes, eles se justificaram através do conservadorismo, e foram mais conservadores do que os seus líderes revolucionários e antecessores no poder, eu vejo isso na história das revoluções iraniana e soviética.

E com Khamenei, a situação piorou consideravelmente. E a população não quer seguir com esse regime atual, mas esse governo é muito autoritário e seria capaz de atacar e matar a própria população para se manter no poder;  Khamenei é capaz de assassinar 100 mil iranianos sem nenhum problema.

Principalmente no pós-revolução islâmica em 1979, muitos judeus que viviam no Irã fugiram do país pela discriminação. Contudo, há poucos judeus que ainda vivem no país, o senhor poderia comentar como é a vida desta comunidade hoje em dia?

Javendafar: O regime do Aiatolá odeia profundamente Israel, e quer atacar e matar israelenses, e há judeus no Irã, e eles podem morar razoavelmente bem, mas sem liberdade política. Então, no Irã os judeus não podem se mostrar contra o regime, e a permanência dos judeus depende de seu silêncio em relação à realidade política e socioeconômica; o governo iraniano não aceita críticas e posicionamentos contrários ao regime atual.

Como a maioria dos judeus não emite posicionamentos políticos, a comunicação com familiares de Israel existia, mas depois de 07 de Outubro ocorreram mudanças significativas e a comunicação é menor e temos poucas informações da situação das comunidades judaicas no Irã.

Os judeus do Irã precisavam de uma permissão para ir para Israel, e em muitos casos eram permitidos ir para Israel e voltar para o Irã, e eu mesmo estive em um casamento em Israel e conheci judeus do Irã, isso ocorreu há 02 anos atrás. Mas depois de 07 de Outubro, não temos comunicação com Teerã.

Você pode comentar um pouco sobre o papel do Irã na América Latina? Principalmente após a decisão da justiça argentina que o Irã foi o responsável pelo ataque à embaixada israelense em Buenos Aires em 1992.

Javendafar: Eu tenho poucas informações sobre o que acontece agora com o Irã e a América Latina, atualmente. Em 1990, eu poderia falar da proximidade do Irã em Ciudad del Este e em Foz do Iguaçu. E agora, o Irã tem uma base muito grande na Venezuela, e usam passaportes venezuelanos para o tráfico de drogas.

Qual é a sua opinião sobre o impacto político e social da presidência de Mahmoud Ahmadinejad no Irã, especialmente em relação às relações internacionais e o acirramento do conflito com Israel? O senhor concorda que podemos chamar que houve ou ainda há uma guerra fria entre Israel e Irã?

Javendafar: Ahmadinejad foi um fantoche do aiatolá Khamenei, qualquer coisa que o Aiatolá pensou, o Ahmadinejad falou. Ele foi como um filho até 2002, e tiveram problemas entre eles. Ele tinha boas relações com o Brasil e a Venezuela, e o Lula esteve no Irã para um encontro sobre o pacto nuclear. Ahmadinejad foi também um grande amigo de Chávez, e ao mesmo tempo que o Irã vendia petróleo a 120 dólares o barril – e quando há muito dinheiro há muitos amigos.

Agora, a Venezuela tem boas relações com o Irã, e há investimentos, relações empresariais para desenvolver o setor petrolífero, além de maquinário e construção civil.

Mas a amizade não foi sustentável com a América Latina, Maduro é um amigo do Irã porque o Maduro está isolado na América Latina e ninguém quer investir na Venezuela. E ele precisa do dinheiro e de tecnologia para  manter o seu regime, assim como o governo de Caracas deseja a expertise iraniana em eliminar protestos civis, e o governo iraniano possui experiência contra a própria população.

E o povo da América Latina, o que há do regime do Irã para a América Latina?

A América Latina tem muita democracia, há direitos das mulheres, há liberdade social, e o Irã é uma ditadura, por isso a amizade entre eles não é sustentável, porque não há muito em comum entre a América Latina e o Irã.

Como Khamenei foi conservador como Stalin, e a ideologia é muito importante para ele, e a ideologia é anti Estados Unidos e Anti Israel, uma das razões é porque Israel é um amigo dos Estados Unidos, por isso a ideologia do Irã é ser amigo de qualquer país anti Ocidente.

Já o Soft Power do futebol do Brasil no Irã é muito grande, há um time de futebol no Irã, da cidade de Abadan, que falam que são os brasileiros do futebol do Irã, e a camisa de futebol é como a do Brasil. Eles falam que o Brasil foi parte de Abadan e que depois de um acidente geográfico, eles se separaram. O povo de Abadan é muito alegre, e gosta muito do Brasil e também há árabes lá. Eu adoro essas relações.

Agora, sobre a guerra Irã e Israel, ainda há guerra fria?

O Irã lançou drones, mísseis balísticos, portanto, não há guerra fria. E ,antes do ataque, o regime do aiatolá de 1981 até hoje ajuda grupos a matar israelenses, e o regime iraniano, em 1992, atacou a embaixada em Buenos Aires. E em 1994 houve outro ataque; isso não é uma Guerra Fria porque os soviéticos não pagaram outros para matar civis.

 

Falando agora do recente ataque iraniano a Israel, qual foi o cálculo estratégico do Irã para decidir retaliar Israel da forma que ocorreu? E quais são os objetivos em colocar o Irã exposto para uma guerra real com o Estado judeu?

Javendafar: O regime do Irã quer traçar uma linha vermelha para Israel, e dizer que depois do ataque, de sábado, que isso é uma mensagem clara para Israel “se depois de agora, você matar oficiais iranianos dentro ou fora do Irã, o Irã irá atacar Israel diretamente”.

O Irã traçou uma linha vermelha.

Antes, o Irã usava o Hezbollah e o Hamas para dissuadir. E o regime iraniano ajudou o Hamas, o Hezbollah e a Jihad Islâmica por muitos anos para Israel não atacar o Irã diretamente, mas não foi um sucesso Porque Israel atacou e continua a atacar, seja na Síria, seja dentro do Irã.

E o regime iraniano decidiu trocar a forma de lidar com Israel e escolheu traçar uma nova linha vermelha, e se Israel atravessar essa linha precisará pagar um preço mais alto. E como os britânicos, os franceses e a Jordânia (grande aliado de Israel) e os EUA ajudaram Israel, o Irã acha que Israel está dissuadido, que Israel não vai atacar a guarda revolucionária em nenhum lugar, e por isso acredita ter elaborado uma nova realidade.

Vimos que outros países árabes saíram em defesa de Israel, o que há algumas décadas seria inimaginável. Qual é o objetivo de Jordânia e Arábia Saudita em rivalizar com o regime do Irã?

Javendafar: A Arábia Saudita critica fortemente Israel pela situação em Gaza, mas para o governo saudita, os políticos iranianos não são aceitáveis, e o governo é muito perigoso. E é muito importante destacar que acredito em uma resposta bélica de Israel  ao Irã, porque os aliados de Israel não querem uma grande guerra no Oriente Médio, e a resposta de Israel deve ser limitada, pois já existem outros focos, como: Gaza, os reféns e o Hezbollah.

Agora, uma guerra com o Irã não é prioridade para Israel.

Para o Hezbollah, o Irã é muito importante. Em 2017, o Hezbollah anunciou abertamente que cada dólar que eles tinham era de origem iraniana. E segundo a inteligência de Israel, 75% do financiamento do Hezbollah é iraniano, então o Irã é muito importante para o Hezbollah.

Mas para receber o financiamento, o Hezbollah precisa escutar o Aiatolá, então o Hezbollah é e não é uma marionete do Irã. E isso ocorre porque mesmo com a necessidade do financiamento iraniano, o líder do Hezbollah é libanês e reside no Líbano, então ele não está totalmente sob as ordens iranianas, mesmo que as siga consideravelmente.

O restante do dinheiro utilizado pelo Hezbollah vem do tráfico de drogas e do apoio de libaneses da África. E do Brasil, não há muito apoio, pois a maioria dos libaneses são cristãos.

Então, o Hezbollah não pode funcionar sem o dinheiro do Irã, que também investe seus recursos no Líbano, na Síria, no Iraque e no Iêmen. E o regime do Aiatolá se vê com super poderes e que ele precisa ter aliados e influências na região, assim como foi a URSS no leste europeu. Porque sem isso, ele não teria os seus super poderes.

Por isso, o Aiatolá procura e pesquisa alianças com grupos xiitas e até sunitas, tanto que a Jihad e o Hamas são sunitas. Ele procura qualquer grupo que queira trabalhar com o Irã contra os EUA e Israel.

 

Poderia deixar uma mensagem final da entrevista para brasileiros, israelenses e iranianos?

Javendafar: Para o povo iraniano, em vez de drones e mísseis, quero receber o povo do Irã, em um voo direto Teerã – Tel Aviv, e a amizade pelo povo iraniano e israelense não vai acontecer com esse governo iraniano. Como o Aiatolá é próximo de Bashar al-Assad, sabemos ele fez na Síria, posso dizer que o povo quer outro regime, mas o governo do Irã pode matar 100 mil iranianos, e o Xá não podia fazer isso e por isso houve a Revolução.

Aos brasileiros, eu conheço brasileiros e eu tenho um amor muito grande pelo Brasil e me sinto em casa quando estou aí, e senti isso desde o primeiro dia no Brasil, e mesmo sem entender uma palavra português.

Para mim, é muito importante a relação Brasil-Israel. E no que eu puder, eu quero fortalecer a amizade Brasil e Israel. Eu adoro a cultura brasileira, que tem um soft power muito forte em Israel.

Aqui em Israel, nós temos o jiu jitsu do Brasil, que é super popular e há capoeira, que as minhas filhas praticam e gostam muito.

Eu gostei muito da minha vivência na Bahia e amo a capoeira e a música brasileira.

Eu estou disponível e com prazer para apoiar as relações do Brasil e de Israel.

O povo brasileiro apoia muito Israel, e eu agradeço verdadeiramente por Israel ter amigos tão importantes no Brasil, os políticos mudam e a amizade fica, e o fortalecimento da amizade Brasil Israel é muito importante.

Inshallah, estarei um dia aí no Brasil com vocês, e que possamos estar em Teerã também ! A imagem do Brasil é gigante no Irã e também em Israel!