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O que você seria capaz de fazer por amor? uma resenha de Os Amantes – Por Ana Beatriz Muniz

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Os Amantes: Para ficarem juntos, eles desafiaram as famílias, os terroristas, o governo do Afeganistão e a própria morte é o título brasileiro para o livro The lovers do escritor estadunidense Rod Nordland. Trazido para o Brasil pela editora Harper Collins Brasil, em 2016, contou com o trabalho de tradução de Natalie Gerhardt. O livro trata da história de amor de Ali e Zakia, que em muitos momentos durante a narrativa ambos são comparados ao casal shakesperiano Romeu e Julieta por seu amor proibido.

Começamos a acompanhar a história do casal antes da chegada dos EUA ao Afeganistão enquanto o país era comandado pelo grupo terrorista sunita, talibã, no qual criou um ambiente hostil aos xiitas que muitas vezes, acabaram sendo mortos.

“Eles tratavam os xiitas muito mal, até mesmo as crianças […]Se você não fosse xiita, não era tratado mal, mas até mesmo as crias xiitas eram maltratadas.” (página 38).

Ali é um rapaz haraza, um povo de origem mongol e muçulmanos xiitas, seu grupo era considerado inferior mas foi um dos primeiros a criarem escolas para meninas após a intervenção em 2001. Já Zakia é uma moça tajique que são de ascendência persa e muçulmanos sunitas, nossa protagonista começou usar burca por obrigação e por respeito aos irmãos mas deixa claro em muitos momentos a opinião que a vestimenta foi criada para punir as mulheres. 

Desde o começo vemos alguns assuntos importantes para a sociedade afegã: a diferença religiosa e a honra da família. Apesar de se conhecerem desde pequenos e crescerem como vizinhos, foi no final da adolescência que se apaixonaram quando levavam os animais das famílias para pastar. A partir de então surgem momentos de tensão, com as tentativas de encontros, saídas escondidas no meio da madrugada e as diversas fugas. Por serem de linhas muçulmanas diferentes, o casamento é proibido e muito mal visto pela sociedade, mas no caso de Ali e Zakia é muito pior pois a família dela não aceitou.

A partir do momento em que Romeu e Julieta afegãos revelam seu amor aos familiares começam tentativas de afastamento, que só piora no momento em que ambos fogem para estarem juntos. Desde essa fuga, começam várias perseguições para que os homens da família de Zakia tenham ela novamente em suas mãos e possam cumprir o que eles acreditam ser justo e honroso. Importante ressaltar que a maioria das famílias afegãs tem como figura de autoridade o pai ou irmãos, as mulheres são posses desses homens e devem submeter-se às ordens dadas pelos homens da casa. Foi o que aconteceu com Zakia, que a partir do momento em que desafiou sua família foi jurada de morte.

Apesar de não existir imparcialidade o autor não afegão tenta manter-se neutro e demonstra respeito mantendo atenção em relatar os fatos; a leitura é recomendável para quem não conhece o islã ou o Afeganistão por ser de fácil compreensão, ter explicações, boas notas de fim de livro e dois apêndices em que aprofundam mais as questões femininas trazidas no decorrer da narrativa.

O livro foi escrito e publicado antes da retirada das tropas estadunidenses e a tomada do talibã por isso muito provável que neste momento esteja acontecendo novas histórias de amores impossíveis continuem acontecendo como outras que encontramos no livro com finais tristes ou finais “bonitos” na medida das possibilidades como de Zakia e Ali. Em um dos apêndices essa hipótese é debatida e o trecho a seguir traz a opiniões de muitas mulheres afegãs.

“Em suas vidas pessoais, as ativistas dos direitos da mulher, como a sra. Frogh, continuam prisioneiras da própria família e dos homens, que conduzem suas vidas. ‘Foi um erro o que cometemos’, disse ela. ‘Não houve um movimento de mulheres para mudar o que acontece dentro de casa. Não conseguimos mudar as relações e diferenças de poder dentro das nossas famílias, então vivemos um tipo de papel duplo. Fora de casa, somos ativistas pelos direitos das mulheres. Em casa, ocupamos um lugar bem diferente. Em geral, um lugar onde somos espancadas pelos maridos, vítimas de violência, não importando quem sejamos.’” (p. 300 apêndice 1)