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O PAPEL DA MÍDIA NA QUESTÃO ISRAELO-PALESTINO

Por Giovanna Back Galante.

A mídia desempenha um papel primordial na formação da opinião pública e na consolidação de perspectivas sobre questões complexas como a questão israelo-palestina. Ao discutir a tendenciosidade da mídia nesse contexto, é possível destacar como as narrativas parciais podem afetar negativamente o diálogo, a paz e a busca por soluções. O objetivo deste artigo é analisar como os meios de comunicação, muitas vezes, enfatizam pontos de vista específicos ou distorcem informações, influenciando a percepção pública e contribuindo para a polarização do conflito. Assim, abordar esse tema é fundamental para incentivar uma análise crítica das informações apresentadas pela mídia e promover uma maior compreensão das diferentes perspectivas envolvidas no conflito. Espera-se que esse artigo contribua para uma visão mais equilibrada e informada, permitindo que o público tenha uma postura mais crítica e consciente diante das informações veiculadas pela mídia.

Palavras-chaves: mídia; questão israelo-palestina; influência.

Abstract:

 

The media plays a key role in shaping public opinion and consolidating perspectives on complex issues such as the Israeli-Palestinian conflict. By discussing media bias in this context, it is possible to highlight how partial narratives can negatively affect dialogue, peace, and the search for solutions. The purpose of this article is to analyze how the media often emphasize specific points of view or distort information, influencing public perception and contributing to the polarization of conflict. Thus, addressing this topic is essential to encourage critical analysis of the information presented by the media and to promote a greater understanding of the different perspectives involved in the conflict. It is hoped that this article will contribute to a more balanced and informed view, allowing the public to have a more critical and conscious attitude toward the information conveyed by the media.

 

Keywords: media; Israeli-Palestinian conflict; influence.

  1. Introdução

 

A questão israelo-palestino é complexa, antiga e que acabou atraindo atenção significativa da mídia global. Ao longo dos anos, os meios de comunicação desempenharam um papel crucial na formação da opinião pública e na forma como o conflito é percebido pela comunidade internacional. No entanto, alguns críticos (LERNER, 2010) argumentam que a mídia tende a se inclinar para o lado palestino, o que pode ter implicações na precisão e imparcialidade da cobertura jornalística.

 

  1. Desenvolvimento

 

  II.I Representação da Mídia e enquadramento atual

 

Primeiramente, é lícito citar que um aspecto significativo do viés da mídia é a maneira como os eventos e os atores do conflito são retratados. Estudiosos identificaram casos em que as narrativas e queixas palestinas recebem uma cobertura mais proeminente, enquanto as ações israelenses às vezes são desproporcionalmente condenadas. O enquadramento do conflito geralmente enfatiza o sofrimento, deslocamento e baixas dos palestinos, enquanto as preocupações com a segurança de Israel ou o contexto histórico podem receber menos atenção. 

Desse modo, muitos veículos de mídia perpetuam estereótipos e preconceitos, especialmente quando se trata de retratar o povo judeu. Um exemplo desse estereótipo é a acusação de que o povo judeu é responsável por todas as ações negativas no conflito. Isso é evidenciado pela cobertura da mídia de eventos como a construção de assentamentos na Cisjordânia e o bloqueio da Faixa de Gaza. Enquanto Israel é frequentemente retratado como o agressor, a mídia raramente aborda as razões por trás das ações de Israel, como a necessidade de segurança ou a defesa contra ataques terroristas.

Ademais, outro exemplo é a linguagem usada na mídia para descrever o conflito. Os jornalistas frequentemente usam palavras como “massacre” e “genocídio” para descrever as ações de Israel, mas raramente usam essas palavras para descrever as ações dos palestinos. Isso pode levar a uma percepção distorcida da realidade e fazer com que as pessoas culpem injustamente Israel.

Além disso, a mídia muitas vezes falha em fornecer contexto histórico sobre o conflito, o que pode levar a uma percepção distorcida e parcial da realidade. A mídia, repetidamente, deixa de lado informações importantes sobre o histórico de ataques terroristas contra Israel, ou sobre a oferta de concessões territoriais que Israel fez em troca de paz, por exemplo (BLONDHEIM e SHIFMAN, 2009).

Nesse sentido, parte do público que é exposto aos conteúdos informacionais a respeito da questão israelo-palestina não sabem que a Guerra dos Seis Dias de 1967, na qual Israel conquistou a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental, foi uma guerra defensiva ou preemptiva, em que Israel seria atacado por seus vizinhos árabes (AVILA; RANGEL, 2009). Sem esse contexto histórico, a cobertura da mídia transmite ou dá a entender que Israel está tomando territórios palestinos.

Além do mais, o autor Jed Babbin (Jed Babbin, 2015) explica que a mídia é parcial para o lado palestino, como pode ser observado no movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que surgiu como uma campanha global de pressão sobre Israel para que este respeite os direitos humanos dos palestinos e promova a igualdade entre cidadãos árabes e judeus em Israel e atue de acordo com as resoluções da ONU. Muitas vezes, o movimento busca não apenas criticar as políticas do governo israelense, mas também negar o direito de existência de Israel, como Estado judeu. Isso é considerado uma forma de antissemitismo, segundo a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), já que nega a autodeterminação do povo judeu na terra de Israel. Nesse sentido, a forma como a mídia cobre o movimento e suas ações tem frequentemente causado controvérsia e impactado a imagem de Israel. A mídia, em certas ocasiões, enfatiza os aspectos negativos para com os palestinos, como a ocupação e os assentamentos, dando destaque às ações do BDS como uma resposta legítima. Essa abordagem, por vezes, simplifica as questões complexas envolvidas no conflito, omitindo detalhes sobre a situação de segurança de Israel e o contexto histórico das tensões regionais (DE ANDRADE, 2016).

Outro exemplo de como uma mídia foi tedenciosa (parcial) para os palestino  foi o caso da rede de televisão Al Jazeera. Tal emissora, com sede no Catar, é conhecida por sua ampla cobertura de notícias do Oriente Médio. Em 2008, durante a Operação Chumbo Fundido, um conflito armado entre Israel e o Hamas em Gaza, a Al Jazeera foi acusada de mostrar imagens fortes e impactantes de vítimas civis palestinas, com pouco contexto ou referência aos ataques do Hamas contra Israel. Essa cobertura foi criticada por dar uma ênfase desproporcional às vítimas civis palestinas, sem fornecer informações mais abrangentes sobre o contexto do conflito, incluindo os ataques de foguetes do Hamas direcionados a áreas civis israelenses (LIAN, 2013).

Desta forma, a seleção de imagens e a falta de contexto podem ter criado uma percepção de que Israel estava atuando de forma indiscriminada e desproporcional em relação aos palestinos. A cobertura parcial gerou críticas à Al Jazeera por sua suposta tendência pró-palestina.

Todavia, é importante notar que esses são apenas alguns exemplos específicos e que a tendência de qualquer mídia para qualquer lado do conflito pode ser objeto de análise e discussão mais aprofundada. A cobertura equilibrada e imparcial é um desafio complexo para qualquer meio de comunicação, dada a natureza multifacetada e delicada dessa questão.

 

II. II Implicações do Viés Midiático

 

A parcialidade da mídia na questão estudada pode ter várias implicações, entre elas:

 

  • Percepção Pública Distorcida

 

O viés midiático pode contribuir para uma compreensão desequilibrada do conflito, gerando um sentimento de simpatia pública para com um dos lados do conflito. Isso pode dificultar os esforços para encontrar uma solução equilibrada e duradoura a respeito da questão.

 

  • Polarização e Animosidade

 

A cobertura tendenciosa pode agravar divisões e animosidades entre as comunidades atuantes na questão. Isso pode contribuir para a perpetuação do ódio e do conflito, tornando cada vez mais difícil o estabelecimento de diálogo e conciliação entre israelenses e palestinos.

 

  • Impacto Diplomático

 

O viés midiático pode influenciar os esforços diplomáticos e as respostas internacionais ao conflito. Diplomatas, políticos e indivíduos leigos no assunto que dependem fortemente de notícias da mídia podem tomar decisões com base em informações incompletas ou distorcidas.

  1. Conclusão

 

Em conclusão, a mídia desempenha um papel significativo na forma como o Oriente Médio e o povo judeu são percebidos no contexto do conflito israelo-palestino. Infelizmente, muitos veículos de mídia perpetuam estereótipos e preconceitos, retratando o Estado de Israel como responsável por todas as ações negativas no conflito. Além disso, a linguagem usada pela mídia para descrever o conflito e a falta de contexto histórico pode levar a uma percepção distorcida da realidade. É importante que a mídia se esforce para oferecer uma cobertura equilibrada e justa com a finalidade de evitar a perpetuação de preconceitos. Dado que é através desse compromisso com a verdade que a mídia pode desempenhar seu papel importante como guardiã da informação e da democracia. Ademais, levando em consideração o fato de que a mídia não é uma entidade monolítica, e de que existem diferenças significativas na forma como diferentes veículos de comunicação noticiam o conflito. Assim, cabe ao público avaliar criticamente as informações que recebem, visando uma compreensão mais equilibrada e abrangente do conflito israelense-palestino. Ao fazer isso, os indivíduos podem contribuir para um discurso público mais imparcial e matizado, que apoie, em última instância, a busca pela paz e pela resolução desse conflito. Em um mundo onde o consumo de mídia é generalizado e influente, promover um jornalismo responsável é crucial para fomentar um diálogo genuíno e soluções sustentáveis na busca pela paz no Oriente Médio.

Referências: 

 

SCHNEIDER, Marco. Mídia, política e ideologia. Revista Fronteiras. Estudos Midiáticos, v. 8, n. 1, p. 54-61, 2006.

 

LIAN, Gabriela Santos. A rede de televisão árabe al jazeera: crescimento e relevância no contexto local e internacional. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, 2013.

 

LONGHI, Raquel Ritter; FLORES, Ana Marta M. Narrativas webjornalísticas como elemento de inovação: casos de Al Jazeera. Folha de S. Paulo. The Guardian. The New York Times e The Washington Post. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 40, p. 21-40, 2017.

 

DE ANDRADE, Matheus. Os Reflexos Na Mídia Brasileira da Questão Palestina e Suas Nuances Políticas, 2016.

 

BLONDHEIM, Menahem; SHIFMAN, Limor. What officials say, what media show, and what publics get: Gaza, January 2009. The Communication Review, v. 12, n. 3, p. 205-214, 2009.

 

AVILA, Rafael. RANGEL, Leandro. A Guerra e o Direito Internacional. Belo Horizonte: Del Rey, 2009. 176p – Coleção para Entender.

BABBIN, Jed. A Nova Guerra Contra Israel. Simonsen, 215.